TÁBUAS CORRIDAS : DEFORMAÇÕES DEVIDO A UMIDADE

Fatos Históricos
A utilização de assoalhos e forros de madeira constitui-se em antiga prática construtiva, muito observada em casas de fazendas ou casarões coloniais.
Os pisos em tacos, com o tempo, cederam lugar aos antigos assoalhos, com nova determinação e formas diferenciadas no tratamento de sua película de revestimento.
As tábuas corridas caíram no gosto dos brasileiros, sendo largamente utilizadas, enceradas ou sintecadas, na tentativa de tornar mais nobre o ambiente. Isto exigiu maior apuro técnico nas diversas etapas de sua aplicação, atendendo o padrão refinado atual, bastante diferenciado do anterior, rústico por natureza.
Danificações Observadas
Infelizmente, às vezes observamos queixas quanto a qualidade do assentamento, por causa da grande variação das dimensões das juntas, do empeno das tábuas de forma a soltar-se dos apoios, do desprendimento de farpas e de outros resíduos, causando incômodo físico principalmente em pés de crianças e também estético, fatos incompatíveis em relação ao padrão exigido pelo comprador.
Não rara vezes, o fato acarreta a retirada de todo piso ou forro, e sua nova colocação, com despesas indesejadas para ambas, construtor e proprietário, em manutenções de praxe ou até mesmo em atendimento a despacho judicial.
Com exceção das deformações decorrentes da técnica indevida de assentamento, os cuidados referentes à forma de secagem das tábuas e o perfeito controle de sua umidade constituem-se em fatores básicos indispensáveis à otimização da qualidade do material a ser empregado.
Pesquisa Técnica
Os trabalhos de pesquisa constataram a inexistência de normalização técnica específica a NB 9, de 1945, diz respeito a " execução de soalho de tacos de madeira ", limitando-se às dimensões das juntas ( entre 1,2 e 1,5 mm ).
Da mesma forma, como bibliografia técnica é bastante escassa, restou-nos sair em campo, coletando dados em madeireiras, principalmente aquelas que possuem estufas de secagem, cujo empirismo anterior, aliado a modernos aparelhos de testes, normalmente importados, possibilitaram a utilização de critérios técnicos de controle da umidade, fundamentais para o êxito do assentamento das peças.

Aspectos Técnicos

1- As madeiras destinadas a pisos de tacos ou tábuas corridas devem ser convenientemente secas, por exposição demorada ao ar ou por processo acelerado em estufa adequada.
2- Os teores de umidade, situados entre 6% a 12%, são satisfatórios. Dentro desses limites, as peças de madeiras são consideradas próprias para pisos. Para valores acima de 12%, considera-se que a madeira não está seca o suficiente para ser empregada, podendo causar empenos ou retratação, o que reduziria as suas dimensões.
3- Nos diversos testes, utilizamos o aparelho denominado "Humitest 100", destinado a apurar o teor de umidade em peças de madeira. Este aparelho, fabricado pela "Nardi", uma tradicional empresa italiana, possui duas afiadas agulhas de aço nas pontas que devem ser cravadas nas peças a serem avaliadas e interligadas a um mostrador digital que fornece, imediatamente ao contato, os valores analisados, desde que se fixe a temperatura ambiente estimada.

Características Física da Madeira : secagem em estufa e utilização

De acordo com os professores e engenheiros João Fulgêncio de Paula e José Francisco de Paula Materiais de Construção Edições Engenharia/78, sabe-se que :

  • " A madeira é um material extremamente sensível à ação da umidade relativa do ar, variando suas dimensões em função desse fator higroscópico.
  •  
  • Para se ter uma noção mais exata sobre a água na madeira e a sua transfusão para a superfície, é indispensável uma explicação teórica a respeito da estrutura da parede celular da madeira.
    Sabe-se que as paredes das células são constituídas de pequenos filamentos denominados fibrilas, que possuem estrutura espiralada. Essas fibrilas são numerosas e muito juntas, existindo entre elas uma forte atração, sendo necessário um enorme esforço para separá-las.
    Na madeira úmida, as fibrilas ficam ligeiramente separadas pela água das paredes das células, pois aparentemente têm grande afinidade para certa quantidade de água, maior até que a atração mútua. Daí, a tendência que a madeira seca tem em absorver umidade, e relutância com que perde a umidade.
    Quando a umidade se desprende da parede das células, o filme de água entre as fibrilas torna-se muito delgado. As fibrilas aproxima-se no seu todo.
    A absorção de água promove o afastamento das fibras e a madeira se entumece.

  • Assim, peças de madeira muito secas ( valores abaixo de 6% de umidade, ou seja, contendo apenas água da composição de sua estrutura molecular ) podem sofrer empenos durante os períodos chuvosos ( com alta umidade do ar ), já que tendem a absorver a umidade.
  • Peças de madeira com umidade excessiva ( acima de 12% ) tendem, em períodos muitos secos, a sofrer retração por causa da pequena umidade relativa do ar, conseqüentemente, diminuindo as suas dimensões.
  • As peças secas em estufas têm a sua resistência mecânica aumentada, diminuindo consideravelmente a absorção de água-inter-células. Porém, como "umidade de equilíbrio", devem ter o valor de 1/5 de umidade relativa do ar. A umidade recomendada para utilização deve situar-se cerca de 2% abaixo deste valor. Assim, temos :
    umidade de equilíbrio = umidade relativa do ar 5
    umidade recomendada = umidade equilíbrio – 2%
    Desta forma, para valores da umidade relativa do ar, situados em torno de 60%, a umidade de equilíbrio seria de 12%. Já a umidade recomendada seria em cerca de 10%.

    Estas características da madeira, obrigatoriamente, devem ser consideradas quando forem usadas para qualquer finalidade. Sua utilização em pisos e forros é um exemplo disso.

    Élcio Avelar Maia
    Engº Civil e de Segurança do Trabalho,
    Perito Judicial, Consultor Pericial e
    Diretor-Adjunto Administrativo do IMAPE - 1995/1998