Descolamentos de Revestimentos Cerâmicos em Fachadas

Introdução
Através de uma simples inspeção visual nos prédios de Belo Horizonte, é fácil perceber o estado calamitoso em que se encontram muitas de nossas fachadas revestidas com cerâmicas. Não há a necessidade, por parte do observador, de um apurado conhecimento técnico, pois o problema salta as vistas de toda a população que circula pelas ruas da cidade.

Edificações, às vezes com menos de um ano de utilização, apresentam suas fachadas com revestimento cerâmico como um tabuleiro de xadrez, apresentando alternadamente áreas revestidas e áreas deterioradas (mostrando o emboço ou até mesmo a alvenaria).

Os descolamentos de um revestimento nobre como a cerâmica, que muitas vezes tem custo elevado, depõem sobremaneira contra a engenharia e arquitetura do país, sendo uma agressão às vistas da população e à integridade das edificações, ferindo o conceito de habitabilidade, direito básico dos proprietários das unidades imobiliárias.
Além da desvalorização natural do imóvel devido aos aspectos visuais, a base dos revestimentos (alvenaria ou concreto), sem o adequado acabamento final, torna-se vulnerável às infiltrações de água e gases, o que conseqüentemente conduz a sérias deteriorações no interior dos edifícios, podendo ser as mesmas de ordem estética ou até mesmo estrutural.
Cerâmicas, argamassas colantes e rejuntos
Dentre os principais materiais utilizados no revestimento cerâmico de uma fachada é possível identificar algumas características básicas que devem ser verificadas para o melhor desempenho do sistema de revestimento utilizado.
A Associação Nacional dos Fabricantes de Cerâmica (ANFACER) recomenda que as cerâmicas a serem utilizadas nas fachadas apresentem :

  • absorção d'água menor ou igual a 6,0 %;
  • dilatação higroscópica (ou expansão por umidade) menor ou igual a 0,06 % (ou 0,6 mm/m);
  • garras no tardoz.

    As restrições citadas quanto a absorção d'água e dilatação higroscópica sinalizam para uma peça cerâmica com menor tendência a movimentações causadas por absorção e adsorção de água, oriunda de chuvas e da umidade relativa do ar. Estas movimentações solicitam a interface argamassa colante/base, submetendo-a a tensões tangenciais que podem resultar no descolamento das peças cerâmicas. A temperatura e o tempo de exposição à queima estão diretamente relacionados com estas duas propriedades dos revestimentos cerâmicos. Alguns resultados de absorção d'água e dilatação higroscópica de cinco marcas de cerâmicas comumente utilizadas em Belo Horizonte são apresentados ao final deste artigo.

    A preferência por peças cerâmicas que apresentem garras no tardoz diz respeito a uma garantia de melhor ancoragem mecânica da argamassa às costas da cerâmica.
    Acrescenta-se a estes parâmetros uma restrição geométrica (utilização de peças limitadas a dimensão de 20 x 20 cm), que pode ser compreendida pelo interesse no menor peso próprio da peça, bem como em menores dilatações percentuais da mesma.

    Quanto às argamassas colantes, pode-se, inicialmente, classificá-las em rígidas e flexíveis. As flexíveis (ou argamassas colantes com adições poliméricas) se apresentam como uma interessante solução para uso em fachadas devido a sua maior capacidade de absorver as tensões oriundas da movimentação do revestimento cerâmico e da base, sem apresentar ruptura. Em ambos os casos, é interessante verificar os resultados dos ensaios de determinação do tempo em aberto e da resistência de aderência.

    O tempo em aberto significa o tempo em que a argamassa colante pode ficar estendida por sobre a base até a colocação da cerâmica, sem que haja perda de sua propriedade adesiva. É importante não confundi-lo com tempo de utilização da argamassa colante (máximo de 2 horas e meia após seu preparo, sendo vedada, neste período, a adição de água ou outros produtos), ou tão pouco com o tempo de remistura, que é o período de descanso da argamassa entre sua primeira mistura e sua utilização (deve-se seguir recomendações do fabricante, geralmente em torno de 15 minutos). A finalidade deste tempo é permitir que os aditivos presentes se tornem ativos e prontos a conferir propriedades fundamentais, tais como retenção de água, plasticidade e adesividade.

    É importante salientar que, no caso de fachadas, a grande exposição ao sol e ao vento demandam cuidados especiais e requerem argamassas colantes com elevados valores de tempo em aberto. Na falta de normatização em vigência no Brasil, cita-se, como referência, o projeto de norma ABNT número 18:406.04-003 -Determinação do Tempo em Aberto - que recomenda para a utilização em fachadas, argamassas colantes que apresentem no mínimo 20 minutos de tempo em aberto (argamassas do tipo II). Em algumas publicações do CCB (Centro Cerâmico do Brasil) é sugerido pelo menos 30 minutos para o tempo em aberto de argamassas colantes para uso em fachadas.

    No que diz respeito a resistência de aderência de uma argamassa colante, seu valor é obtido através de um ensaio de arrancamento (esforço normal de tração simples), que tende a separar a cerâmica do substrato onde esta está assentada. Uma placa metálica aderida à cerâmica, através de cola a base de resina epóxi, recebe o equipamento de tração, que por sua vez realiza o arrancamento do conjunto, verificando-se a tensão e o local de ruptura. Alguns resultados de resistência de aderência de quatro tipos de argamassas colantes comumente utilizados em Belo Horizonte são apresentados ao final deste artigo.
    Em respeito ao rejuntamento, espera-se que este cumpra suas funções de preenchimento das juntas entre as cerâmicas (juntas de assentamento), sendo, sempre que possível, impermeável, lavável, não susceptível ao encardimento e resistente aos esforços que lhe forem conferidos. A inexistência de valores de referência para ensaios com argamassas de rejuntamento dificulta a apresentação de quaisquer resultados.

    Técnicas Executivas
     
    Inicialmente, é necessário realizar um correto preparo da base (emboço) a ser revestida. É interessante que este emboço tenha sido executado sobre alvenaria chapiscada (seja ela de blocos cerâmicos ou de concreto), uma vez que o revestimento externo é muito solicitado por sol, chuva, ventos e umidade e o chapisco apresenta-se como um elemento de melhoria de aderência dessa argamassa de regularização ao substrato. O emboço deve estar concluído há pelo menos 14 dias, sendo que algumas publicações recomendam um tempo de 30 dias, entre o seu término e o início do assentamento do revestimento cerâmico. É importante salientar que um maior período de tempo entre estas etapas garante uma menor susceptibilidade aos descolamentos devido a movimentação da base do assentamento em função da retração hidráulica, propriedade comum aos produtos cimentícios. Estas movimentações geram tensões superficiais, muitas vezes de magnitude superior as que o conjunto cerâmica/argamassa colante é capaz de suportar, ocasionando, então, o descolamento. O emboço também deve se apresentar seco, isento de poeira, barro, fuligem, substâncias gordurosas, graxas, eflorescências e quaisquer elementos estranhos para que não haja prejuízo da aderência da argamassa colante a ele.
    Antes do assentamento da cerâmica, é necessário que estejam bem definidos a dimensão e o posicionamento das juntas de assentamento e das juntas de movimentação. As juntas de assentamento têm como principal finalidade permitir a movimentação unitária da peça cerâmica. Geralmente, o fabricante da cerâmica fornece recomendações quanto aos valores a serem utilizados de acordo com o tamanho da peça e local a ser utilizado. Já as juntas de movimentação, que são utilizadas para possibilitar a movimentação dos diversos panos cerâmicos como um todo, constituem-se de um corte no emboço, sendo este preenchido com um material resiliente e complementado com material selante até a face da cerâmica. A norma ABNT NBR 13.755/96 - Revestimento de paredes externas e fachadas com placas cerâmicas e com utilização de argamassa colante - Procedimento - recomenda "(...) execução de juntas horizontais de movimentação espaçadas no máximo a cada 3 m ou a cada pé direito, na região de encunhamento da alvenaria. Recomenda-se a execução de juntas verticais de movimentação espaçadas no máximo a cada 6 m. (...)"

    Vale lembrar que as peças cerâmicas a serem assentadas com argamassas colantes devem estar secas para não haver prejuízo da aderência, a não ser que haja recomendações contrárias do fabricante da argamassa colante ou da cerâmica.

    Para o assentamento do revestimento cerâmico, a argamassa colante deve ser aplicada com desempenadeira metálica dentada, estendendo-a na parede com o lado liso e, em seguida, frisando-a com o lado dentado. Deve-se sempre manter a atenção quanto ao desgaste dos dentes da desempenadeira, pois a quantidade de argamassa colante que permanece após o frisamento é função da sua dimensão.
    Desempenadeiras com dentes gastos devem ser substituídas. A cerâmica deve ser posicionada rompendo-se os filetes da argamassa colante e, posteriormente, deve ser suficientemente percutida, com elemento não metálico, até o extravasamento da argamassa pelas laterais da cerâmica.

    Deve-se tomar especial atenção para que não seja excedido o tempo em aberto da argamassa colante. Testes "in loco" podem ser realizados para averiguar este dado. A verificação das situações abaixo indica tempo em aberto excedido :
  • observação de película esbranquiçada brilhante na superfície da argamassa;
  • toque da argamassa colante com as pontas dos dedos e não ocorrência de sujeira nos mesmos;
  • o arrancamento de uma cerâmica recém assentada e a não verificação de grande impregnação da área do tardoz por argamassa colante.
    Para a execução do no úmido e, após mais 15 minutos, limpar novamente com pano seco. Não se deve deixar restos de rejunto secar por sobre a face esmaltada da cerâmica, pois a dificuldade de limpeza deste material levará a necessidade de utilização de ácidos que podem provocar manchas na peça cerâmica.
    Conclusão
    Denota-se a fundamental importância de que todos os envolvidos no processo do revestimento cerâmico de uma fachada (engenheiros, arquitetos, fornecedores, entre outros profissionais) ampliem seus conhecimentos quanto as características desejáveis dos materiais a serem utilizados e detalhes das técnicas executivas. Recomenda-se uma atenciosa leitura da norma ABNT NBR 13.755/96 - Revestimento de paredes externas e fachadas com placas cerâmicas e com utilização de argamassa colante - Procedimento.

    A abordagem científica deste assunto, devido a sua jovialidade, ainda carece de muitas pesquisas e trabalhos. Neste sentido, o Departamento de Engenharia de Materiais e Construção Civil da Escola de Engenharia da UFMG coloca-se como um parceiro, prestando serviços de laboratório e executando projetos de fachada, bem como desenvolvendo pesquisas em conjunto com a iniciativa privada.

      Professor Antônio Neves de Carvalho Júnior
    Eng. Civil, M.Sc. Eng. Metalúrgica e Minas
    Subchefe do Depto. de Engenharia de Materiais e Construção da EEUFMG
    E - Mail :jrmarber@inetminas.estaminas.com.br