PERÍCIAS EM LOCAIS DE INCÊNDIO
  • Dentre as atividades periciais sem dúvida que a apuração das causas de um incêndio é tarefa das mais árduas, exigindo um trabalho minucioso e uma observação meticulosa dos pontos pesquisados.
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  • O local sinistrado possui uma característica diferente dos demais que o perito tem que vistoriar, visto que as possíveis provas normalmente são consumidas parcial ou totalmente pelas chamas. Em seguida, o combate ao fogo e o rescaldo pelos bombeiros ou equipe da brigada de incêndio acabam por transformar totalmente as características da área sinistrada, restando ao perito um trabalho em condições muito insalubres e a pesquisa em massas disformes de objetos.

    I - Metodologia usual

  • A apuração das causas de um incêndio é pois, pela própria condição do ambiente, muito trabalhosa, demanda um espaço de tempo maior para análise, uma boa dose de perseverança e rigorosa minúcia em cada etapa do processo.
    A análise dos fatos deve obedecer a uma metodologia própria, que contempla os seguintes aspectos :

    a) minuciosa vistoria dos local, com o objetivo específico de obter pleno conhecimento de como o mesmo era constituído, principalmente quanto a revestimentos de pisos, tetos e paredes, rede elétrica, equipamentos utilizados, forma de operação, estudo dos acessos e atividades exercidas no momento do sinistro;
    b) estudo da marcha de propagação do fogo;
    c) identificação das áreas mais carbonizadas;
    d) pesquisas junto aos responsáveis e pessoas presentes no momento do fato, com a finalidade de obter as informações necessárias à apuração das causas.

  • À partir desse pleno conhecimento, a metodologia mais utilizada é da eliminação ou exclusão das possibilidades improváveis.
    Para isso, um amplo "check-list" deve ser feito, abrangendo todas as possibilidades de dar causa ao sinistro e, à partir daí, todos os pontos levantados devem ser pesquisados, sendo abandonados ao longo do trabalho aqueles que vão se apresentando como mais improváveis.

    II - Estudo das Causas Prováveis

  • Neste método são admitidos, inicialmente, como causas prováveis, todas aquelas possíveis e suscetíveis de originar o fato em estudo, atuando isoladamente ou em conjunto, tais como :

    * combustão espontânea devido ao acúmulo e forma de acomodação de materiais diversos, tais como carvão, grãos vegetais, etc.;
    * ação de raios solares através de lâminas vítreas;
    * queda de raios;
    * reações exotérmicas de natureza físico-químicas;
    * desprendimento de centelhas advindo de formas externas ao ambiente em estudo, tais como soldas elétricas, descarga estática, atritos gerados entre metais, etc.. * exposição, proposital ou acidental, de material inflamável ou combustível a fonte de calor;
    * incidência de fogos pirotécnicos;
    * transmissão de calor a corpos inflamáveis por equipamento submetido a tensão elétrica;
    * condutores ou conexões em mal contato ou submetidos a carga elétrica excessiva, de forma a gerar intenso aquecimento;
    * ocorrência de curto-circuito elétrico;
    * outros aspectos específicos em relação ao fato examinado.

    VI - NOÇÕES BÁSICAS SOBRE INCÊNDIOS

    1) O Conceito de resistência ao fogo

  • Cada incêndio representa uma situação única. A evolução da temperatura no tempo apresenta em cada caso andamento diferente e variável, porque depende de um número elevado de fatores que se inter-relacionam e são característicos de um determinado ambiente. Entre estes fatores estão enumerados, a seguir, os principais, possuindo destaque especial os dois primeiros :

    a) quantidade, tipo e distribuição dos materiais combustíveis no interior do recinto (carga térmica ou carga incêndio);
    b) suprimento de ar na unidade de tempo (ventilação);
    c) porosidade e forma dos materiais combustíveis;
    d) forma do recinto;
    e) características térmicas dos materiais constituintes do recinto.

  • A severidade de um incêndio - seu potencial destrutivo -, determinado pela evolução da temperatura no decorrer do tempo, condiciona diretamente, nos casos de incêndios reais, a resistência ao fogo dos elementos de construção.

  • Incêndios onde temperaturas elevadas são atingidas rapidamente e se mantêm por períodos mais longos, apresentam um risco maior, pois atacam mais severamente a construção.

    2) A Química do Fogo

  • Todo incêndio "comum" (aquele que não produz seu próprio suprimento de oxigênio), ocorre quando uma substância (combustível), na presença do ar (oxigênio), é aquecida, até chegar a uma temperatura crítica, chamada "temperatura de ignição".

  • Por muitos anos, o princípio da extinção era baseado no "triângulo do fogo" e na remoção de qualquer dos seus três lados, que são representativos dos três componentes. Este princípio não inclui a extinção pela interrupção da reação química em cadeia do fogo.

  • A transformação do "triângulo do fogo" numa "pirâmide de fogo" apresenta um conceito mais realístico da extinção de incêndios.

    A pirâmide possui lados ou faces, uma para cada um dos quatro meios de se extinguir um incêndio.

  • Devido ao fato de que cada face é diretamente adjacente e ligada às outras três, a pirâmide representa acuradamente a interdependência que tem entre si os três componentes e a reação química em cadeia. A eliminação de uma ou mais dessas faces tornará a pirâmide incompleta, e resultará na extinção do fogo.

    Muito comumente são evitados incêndios pela eliminação, ou do combustível ou do calor (fonte de ignição).

    III - Análise e Pesquisas

  • Separadas as causas mais prováveis, a etapa seguinte exige do perito um trabalho de intensa observação. Nessa fase é verificada toda a rede elétrica (se existe a possibilidade de um curto-circuito, inclusive nos equipamentos), com especial atenção para os quadros de distribuição de circuitos.

    As fiações devem ser puxadas das tubulações e rigorosamente examinadas de forma a ser possível identificar se as partes queimadas constituíam-se em causa ou efeito em relação ao incêndio. É, pois, um trabalho minucioso, que exige grande dose de paciência e sobretudo experiência no trato de problemas dessa espécie.

  • Ainda nessa fase, todos os indícios físicos julgados importantes devem ser mapeados, emvelopados e etiquetados. A análise em laboratório é procedimento comum, com a finalidade de pesquisar componentes químicos ou identificar quaisquer materiais desconhecidos.

  • Com relação aos equipamentos elétricos, se for o caso, a investigação deve passar pela desmontagem de suas partes vitais, de forma a eliminar qualquer dúvida em relação a sua participação.

  • Finalmente, o estudo deve averiguar qual o grau de participação do elemento humano para a consecução do sinistro, de forma a identificar se foi acidental, proposital ou ocorreu de forma inadvertida.

    IV - Conclusões e elaboração do laudo

  • Pela própria complexidade, um incêndio pode ter como causa um único fato ou até mesmo um conjunto de fatos que se inter-relacionam.

  • Não há, como em outros trabalhos periciais, a figura de uma determinada "patologia" a ser examinada. Cada caso é específico, ainda que se apresente, inicialmente, semelhante a outro estudado.

  • Uma forma prática recomendável na elaboração de um laudo pericial em local onde ocorreu incêndio, é a inclusão, ao longo do texto escrito - e não ao final - das fotografias e análises efetuadas que comprovam os fatos relatados, simplificando o entendimento, formando uma linha de raciocínio técnico coerente e tornando objetiva a sua conclusão.

    Élcio Avelar Maia
    Engº Civil e de Segurança do Trabalho,
    Perito Judicial, Consultor Pericial e
    Diretor-Adjunto Administrativo do IMAPE - 1995/1998